Trechos das CARTAS DA TERRADOIS, edição SXSW por Jorge Forbes
"A principal atração da tarde do primeiro dia foi o prêmio Nobel de Química, entre muitas outras coisas, como a criação da, hoje, Google DeepMind, Demi Hassabi. Demonstrou nobelisticamente que razão e sentimento não se excluem, mas se combinam em realizações de alta criatividade que lhe valeram longos aplausos de reconhecimento. Um contraste absoluto com a conferência da manhã."
"Na mesa de mobilidade, Alex Kendall, que levantou 1 bilhão de dólares para sua empresa explicou como considera mais importante criar aplicativos que transformam os veículos em auto dirigíveis do que, ao contrário, criar veículos que não necessitam de motorista. É claro que não passou despercebida a alusão, por diferença, a Elon Musk. Não foi debatido para onde irá a alta carga de fantasias libidinais dos motoristas que se gabam de imprimir grande velocidade nas curvas da estrada de Santos." "Na mesa para discutir como estaremos em 2050, houve um acordo tácito que não temos a menor ideia. Todas as previsões dessa época de I.A. são ultrapassadas num piscar de olhos. Melhor tratar da angústia provocada pelas rápidas mudanças de contexto do que tentar se garantir em previsões caducas. É um campo para os psicanalistas." "Em muitas mesas sobre a saúde a mesma constatação: operadores de saúde estão boicotando melhores colaborações com a IA por medo de perder o emprego, tal como nos colégios que pensam proibir o uso da IA. Tsic, tsic." "David Cameron, o ex-primeiro ministro, debate com Sir John Bell da cátedra de pesquisas genéticas de Oxford. Penso nos quase vinte anos de colaboração intensa que tenho mantido com Mayana Zatz, titular de Genética Humana da USP. Interessante ver que muitas das nossas questões são compartidas. Um ponto em comum determinante: a velocidade dos avanços científicos é incompatível com o tempo das agências reguladoras como Anvisa ou FDA. É urgente que se ponham no compasso desse novo tempo. Cameron tem uma experiência sensível nesse campo por ter tido um filho portador de uma doença genética rara." "Jessica Sibley, CEO da Time, deve o sucesso da revista por saber diferenciar qual seu negócio principal, a saber, ser uma mídia, de eventuais confetes. A mesma notícia é apresentada em diferentes versões dependendo com quem está falando. Atualmente, a Time tem uma audiência de 120 milhões de leitores e ainda imprime 1 milhão de exemplares físicos para assinantes que desejam receber sua revista exclusivamente nesse formato." "Na discussão sobre o futuro da saúde mental e psicodélicos, com mesa composta por David Nutt; Rose Cartwright e Milana Abensperg Und Traun, aprendo que os psicodélicos expandem a consciência e tocam os corações. Quem poderia ser contrário a esses dois bons votos? Isso basta, no entanto, para justificar a ausência de qualquer elemento crítico e racional? Perdeu-se uma boa oportunidade de fazer uma discussão embasada e consequente." "Muito boa a mesa sobre #booktok e o novo mercado de livros. A diretora da Amazon UK e Europa, Tara Erer, mostra que a lógica se inverteu: antes se escrevia um livro que, se virasse best-seller, poderia gerar um subproduto, como um filme, por exemplo. Agora, criam-se vários produtos que podem ou não fazer de um livro um best- seller mundial. Antes, o mercado editorial era regido por gatekeepers como os grandes editores e críticos das maiores revistas e jornais, ao passo que, hoje, é regido pela comunidade de leitores “fãs” daquele livro." |