| "O umbigo é o ponto em que o sonho, como Freud disse, é insondável, ou seja, o ponto onde, em suma, o sentido ou qualquer possibilidade de sentido termina." Marcel Ritter a Lacan (1975). A psicanálise inicia quando Sigmund Freud percebe que as palavras não são ditas a esmo. Elas guardam um sentido que pode ser desenredado a partir daquilo que é falado. É a clínica da interpretação. Ao seguir, porém, a verdade no que é dito — palavra puxando palavra — até onde chegamos? Há um limite. É sobre esse limite que indaga Michel Ritter, em 26 de janeiro de 1975, quando coloca a Lacan uma pergunta sobre o Unerkannte (o não reconhecido), termo presente nos textos de Freud. No diálogo, publicado nas Lettres de l'École freudienne, em 1976 (e agora traduzido pelo IPLA e estudado no Curso da TerraDois, conduzido por Jorge Forbes), Ritter coloca que "encontramos esse Unerkannte articulado com a questão do umbigo do sonho" — assim ficou conhecido popularmente como a pergunta sobre o Umbigo do Sonho. Unerkannte, porém, não é o único termo que rege a pergunta de Ritter, que segue: "Falou-se esta manhã de certas palavras que começam com "Un": o Unbewusste (inconsciente), o Unheimlich (o sinistro). Isso me fez pensar no Unerkannte (não reconhecido) que encontramos em Freud, especialmente em "A Interpretação dos Sonhos", onde é traduzido erroneamente como "desconhecido", quando na verdade é o "não reconhecido"." "A questão é legítima. Afinal, o próprio Sigmund Freud em seu ensaio Das Unheimliche dedica uma parte à questão gramatical do termo.", coloca Dorothee Rüdiger, na abertura de seu trabalho "UN: uma sílaba e suas questões analíticas". "O texto se refere também ao furo, ao buraco, aos orifícios do corpo. Tema interessante na obra de Lacan." escreve Elza Macedo em seu Pot-pourri acerca do texto. A pergunta de Ritter e a resposta de Lacan traçam também paralelos com o último texto freudiano "Análise Terminável e Interminável" — é o que mapeia, em três pontos, Letícia Genesini. Um debate fundamental para os caminhos da Psicanálise hoje. |