Chaves de Leitura para o Seminário 11 de Jacques Lacan
Pode o psicanalista ou o iniciante prescindir dos fundamentos da Psicanálise, agora, no Século XXI? Não. Quando a clareza e o rigor conceitual estão bem alicerçados, aumenta a flexibilidade da clínica – porque operar com liberdade exige saber de onde se parte. Esta é a primeira razão, epistemológica, para apresentar as chaves de leitura do Seminário XI, 1964: trata-se de retornar às bases não para repeti-las, mas para compreendê-las em sua profundidade e alcance. É essa a condição para que os conceitos permaneçam vivos e operativos, e não se transformem em fórmulas esvaziadas pelo uso irrefletido.
A segunda razão é política. O Seminário 11 marca um ponto de virada no ensino de Lacan. Seus seminários anteriores foram considerados como um “retorno a Freud”, dirigidos a clínicos no Hospital Sainte-Anne. Em 1964, Lacan muda de local e de audiência: ao transferir seu seminário para a École Normale Supérieure, abre seu ensino também a filósofos, linguistas e intelectuais de outras áreas. Nesse mesmo ano, funda a Escola Freudiana de Paris — gesto que reitera, pelo próprio nome, sua fidelidade a Freud. Mas trata-se de uma fidelidade ativa: Lacan relê Freud com instrumentos que este não possuía, especialmente a Linguística, o que lhe permitiu formular que o inconsciente é linguageiro. A linguagem é condição do inconsciente, e não seu produto ou consequência, como outros pretendiam.
A terceira razão é clínica. Lacan critica a leitura que os pós-freudianos fazem dos conceitos fundamentais, recusando os standards e a burocratização que impõem à prática — a rigidez no número de sessões semanais, na duração das sessões e no tempo total de análise. Os conceitos têm estabilidade, mas a forma de utilizá-los não pode ser fixada de uma vez por todas: ela varia à medida que a sociedade muda e a clínica pede mudança de rota. Ao criticar o enrijecimento institucional, Lacan legou instrumentos para operar em um mundo pós-moderno: conceitos vivos, não dogmas.
As três razões convergem: o Seminário 11 é, ao mesmo tempo, fundamento, ruptura e abertura. As chaves de leitura que aqui se oferecem preparam para o que cada um vai encontrar no texto — e espera-se que provoquem o desejo de estudá-lo. É essa, afinal, a razão das chaves de leitura.
Este curso constará de três aulas que percorrem os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, exemplificados com casos clínicos.
O que é uma chave de leitura?
Uma chave de leitura não é um resumo, nem um substituto do texto. É um instrumento de orientação que identifica os nós conceituais, os pontos de maior tensão e os eixos que organizam o pensamento do autor, de modo que o leitor não entre no texto às cegas. Ler Lacan — e, em particular, o Seminário 11 — exige esse tipo de balizamento, porque sua escrita não é linear: ela avança por espirais, retoma o que deixou em suspenso, interpela o leitor com perguntas que só se respondem páginas adiante. Sem orientação prévia, corre-se o risco de se perder no brilho da formulação e perder o fio do argumento.
As chaves de leitura aqui propostas foram construídas em torno dos quatro conceitos fundamentais — Inconsciente, Repetição, Transferência e Pulsão — articulando-os com o momento histórico de sua formulação, com a crítica que Lacan endereça aos pós-freudianos e com as implicações clínicas de cada noção. Não se trata de simplificar Lacan, mas de abrir o acesso ao que ele tem de mais rigoroso e mais provocativo — para que o estudo do Seminário 11 seja, ao mesmo tempo, uma leitura mais consistente e um encontro mais vivo com o pensamento psicanalítico.
Programa do curso
9h00 – 9h30 Café com bolo IPLA
9h30 – 10h30
Aula Inaugural | A realidade do inconsciente é a realidade sexual. Repetição
Talyta de Carvalho
Efeitos da fala sobre o sujeito. Tiquê e Automaton. Repetição no fort-da. O inconsciente no sonho, no ato falho, no chiste. A outra cena. Sujeito da enunciação. O inconsciente estruturado como uma linguagem. A causa. Exemplo clínico.
10h30 – 11h30
Aula 2 | A pulsão e suas vicissitudes
Dorothee Rüdiger
Trieb. Características da pulsão. Vicissitudes da pulsão. Satisfação da pulsão. Satisfação escópica, o olhar. Pulsão invocante, a voz. Estrutura de borda. Demanda do Outro. Pulsões do ego. A sexualidade é de ordem pulsional. Gozo. Exemplo clínico.
11h30 – 12h00 Café com bolo IPLA
12h00 – 13h00
Aula de Encerramento | A transferência como a atualização da realidade do inconsciente
Liége Lise e Teresa Genesini
Transferência – pivô do tratamento analítico. Presença do analista. Desejo. Efeito de transferência. Amor. Desejo do analista. Sujeito suposto saber. Em Ti mais do que Tu. Relato e discussão de um caso clínico.
Informações & Inscrições
Data: Sábado, 23 de maio de 2026
Horário: 09h00 – 13h00
Presencial & Online (Curso Híbrido) As aulas são conduzidas em nossa sede, em São Paulo, com um auditório* de participantes, e transmitida ao vivo na sala virtual do zoom.
Presencial: R$ 390,00 (vagas limitadas)
Online (zoom): R$ 360,00
Alunos do IPLA têm desconto de 20% nas inscrições
Inscrições
Aluno-IPLA: na secretaria
Público geral: inscrições no sympla.
Curadoria: Elza Macedo
Coordenação científica: Jorge Forbes