Psicanálise e IA não falam a mesma língua 01/12/2025

Associação livre e linguagem de LLM: quando e porque a cadeia “para” e nasce o sentido

Jorge Forbes

Por volta da década de 1880, um médico vienense relata a Freud uma experiência curiosa: ao interrogar uma paciente segundo o modelo médico clássico — perguntas dirigidas, anamnese ordenada —, é interrompido por ela. Em vez de responder ao questionário, a paciente pede que o médico se cale. Diz que, se puder falar tudo o que lhe vem à cabeça, sem ser guiada nem interrompida, sente-se melhor.

Nesse pequeno gesto de insubordinação à medicina de perguntas e respostas, abre-se um desvio. Freud irá elevá-lo ao estatuto de regra: nasce a associação livre de ideias, a “regra fundamental” da psicanálise.

Mais de um século depois, outro tipo de “fala” contínua surge em cena: os grandes modelos de linguagem (LLMs), como os sistemas de inteligência artificial capazes de gerar textos longos, coerentes, em resposta a uma instrução mínima. À primeira vista, há uma semelhança: uma corrente de palavras que se produz “sozinha”, sem que um roteiro esteja previamente escrito.

Neste artigo proponho examinar a relação possível de estudo entre esses dois dispositivos de linguagem — a associação livre e a linguagem dos LLMs — a partir de uma pergunta precisa: o que faz com que uma circulação “livre” de palavras pare em um ponto e não em outro, produzindo sentido?

Defenderei que a semelhança é apenas superficial: a corrente é parecida; o motor que a faz girar é radicalmente distinto.

1. A falsa liberdade da associação livre

Ao formular a regra fundamental — “diga tudo o que lhe vier à cabeça, sem censura” —, Freud não está interessado em espontaneidade, autenticidade ou em uma espécie de catarse verbal. O que lhe interessa é o que aparece quando o eu perde o controle do discurso.

Para o paciente, a experiência é vivida como “falar qualquer coisa”, “sem ordem”, “sem juízo”. Para o analista, ao contrário, essa desordem é rigorosamente determinada:

  • surgem equívocos de linguagem, aproximações de som, palavras trocadas;
  • aparecem repetições obsessivas de certos temas, nomes próprios, cenas;
  • irrompem silêncios estranhos, brancos, esquecimentos pontuais, risos deslocados;
  • certos pontos da fala são acompanhados por um afeto desproporcional: excesso de angústia, riso fora de lugar, irritação súbita.

Com Lacan, essa experiência ganha sua formulação mais concisa: o inconsciente é estruturado como uma linguagem. O que circula na associação livre não é um fluxo neutro de palavras, mas uma cadeia de significantes que obedece a leis próprias: metáfora, metonímia, condensação, deslocamento, formação de chistes, lapsos.

Assim, a “liberdade” da associação não é liberdade absoluta. Ela é apenas a suspensão relativa da censura consciente, que permite que venha à tona uma determinação mais radical: a do saber inconsciente e do Real que o atravessa.

2. LLM: um outro tipo de corrente de palavras Um grande modelo de linguagem (LLM) também produz uma cadeia de palavras passo a passo. De forma simplificada, o processo é o seguinte:

  1. O modelo recebe um contexto: um texto de entrada, uma pergunta, uma instrução.
  2. Com base em tudo que aprendeu ao ler bilhões de textos, calcula, para cada posição, a probabilidade de cada palavra possível vir a seguir.
  3. Escolhe uma — a mais provável ou uma entre as mais prováveis — e, a partir daí, recalcula as probabilidades seguintes, e assim sucessivamente.

De fora, vemos um texto se desenrolando “como se” o sistema estivesse pensando, associando, comentando, lembrando. Mas, por dentro, não há lembrança, não há corpo, não há fantasia, não há recalcamento: há apenas uma função matemática que aproxima a forma da linguagem humana.

Enquanto a associação livre se orienta pela lógica do inconsciente, o LLM se orienta por outra coisa: distribuições de probabilidade de palavras aprendidas estatisticamente. Os princípios que o regem não são desejo, gozo ou transferência, mas:

  • o corpus em que foi treinado,
  • o algoritmo de otimização usado para ajustar bilhões de parâmetros,
  • e, numa etapa posterior, o processo de alinhamento (feedback humano, regras de segurança, estilo de resposta, etc.).

Se eu quiser colocar lado a lado:

  • Na associação livre, tenho a cadeia significante movida por um saber inconsciente, que escapa ao sujeito mas o governa.
  • No LLM, tenho a cadeia de tokens movida por um saber estatístico, condensado em parâmetros numéricos, sem sujeito.

3. Em que sentido essas duas cadeias podem ser comparadas?

Apesar da diferença radical de estatuto, há um ponto de contato interessante: em ambos os casos, a cadeia se desenvolve segundo uma regra fraca:

  • Na análise, a regra é: “não censure, não selecione, não organize antes de falar”.
  • No LLM, a regra é: “dada a sequência até aqui, produza a próxima palavra mais coerente”.

Essa fraqueza da regra faz com que, nos dois casos, haja um certo efeito de surpresa:

  • o analisando muitas vezes se surpreende com o que acaba de dizer;
  • o usuário muitas vezes se surpreende com o que a máquina “inventou”.

Mas aí termina a analogia. Porque aquilo que organiza, por baixo, o campo de possibilidades não é da mesma natureza:

  • no analisando, são os significantes mestres, o fantasma, a história singular, o encontro do corpo com a língua e com o gozo;
  • no LLM, são as recorrências estatísticas da língua tal como circula socialmente: o modo como se fala sobre amor, trabalho, dinheiro, política, clínica, etc.

Em termos lacanianos, posso dizer que o LLM é uma espécie de condensado do Outro da linguagem — um espelho sofisticado do “se diz” —, mas não um sujeito do inconsciente. Ele não associa: ele continua.

4. O que faz a cadeia parar aqui e não ali?
Chego à pergunta central: se tanto na associação livre quanto na produção de texto de um LLM vemos uma circulação aparentemente livre de palavras, o que faz com que ela pare num ponto e não em outro, produzindo um certo sentido?

4.1. Na análise: pontos de parada, pontos de gozo
Na clínica psicanalítica, as “paradas” da cadeia associativa podem ocorrer de várias formas:

  • um silêncio abrupto;
  • um “não sei por que estou dizendo isso agora”;
  • um riso súbito após algo dito “por acaso”;
  • um deslize de língua que produz um chiste involuntário;
  • um esquecimento justamente quando se tocava num tema crucial.

Esses pontos não são acidentes de percurso: eles marcam a presença de algo do Real — algo que não se deixa facilmente simbolizar, e que, por isso mesmo, atravessa ou fura o discurso.

Além disso, a cadeia não para sozinha: ela é escandida pela posição do analista. Um corte de sessão, uma intervenção mínima, uma repetição de uma palavra do paciente, um silêncio insistente — tudo isso faz com que a sequência de significantes, que poderia se prolongar indefinidamente, seja pontuada.

Assim, a resposta à pergunta “por que a fala parou exatamente aqui?” é, na análise:

  • porque a organização inconsciente dos significantes do sujeito concentrava ali um ponto de gozo,
  • e porque o analista, com sua escuta e seus cortes, transformou aquele ponto em acontecimento de sentido.

O sentido, aqui, não é uma soma de informações; é o efeito retroativo produzido quando se recorta um ponto de uma cadeia e se o lê de outro modo.

4.2. No LLM: limites técnicos e coerência estatística
Já na linguagem dos LLMs, a parada se dá por motivos de outra ordem:

1. Limites técnicos
O sistema é configurado com um número máximo de tokens (palavras/fragmentos) a produzir, ou com sinais que informam que é hora de concluir (pontos finais, certas expressões de encerramento, etc.).

2. Objetivo pragmático
O modelo é treinado para responder de maneira útil, coerente e concisa. Isso significa que, durante o ajuste fino, ele aprende que certas formas de resposta — que “fecham” bem, com uma espécie de conclusão — são preferíveis.

3. Coerência global
Em cada passo, a escolha da próxima palavra não é apenas local: ela é influenciada pela forma de texto que “tende a se formar”. É frequente ver o modelo reorganizar o que vinha escrevendo para convergir para um padrão conhecido: introdução, desenvolvimento, conclusão; problema, análise, solução; pergunta, resposta, síntese.

Desse ponto de vista, posso dizer que a cadeia pára “aqui e não ali” porque:

  • as probabilidades foram moduladas de tal forma que, a partir de certo ponto, a continuação mais provável é justamente um fecho,
  • e porque a arquitetura do sistema foi construída para otimizar a sensação de resposta completa. Em lugar do Real que barra o dizer, tenho um conjunto de condições técnicas e estatísticas que fecham o sentido.

5. Sentido que abre, sentido que fecha

A diferença mais clínica — e politicamente mais importante — está justamente neste ponto: o que o sentido faz com o sujeito.

Na associação livre:

  • o sentido surge muitas vezes como algo enigmático, que não fecha, mas abre um problema:
    “Por que associei justamente isso a aquilo?”, “Por que esse nome, agora?”, “Por que esse riso nesse ponto?”.
  • o trabalho analítico consiste, em grande parte, em sustentar esse enigma — não tamponá-lo com explicações — até que algo da posição do sujeito se desloque.

Na linguagem dos LLMs:

  • o sentido tende a ser organizado para fechar: resposta clara, síntese final, “tomada de posição”;
  • a função é, em geral, apaziguar a inquietação com uma forma de saber que se apresenta como “já sabido”: o modelo devolve a média do que “se diz” sobre um tema, em vez de expor a falha no saber.

A clínica da associação livre trabalha com o ponto em que a fala tropeça, falha, se interrompe, se contradiz. A tecnologia dos LLMs, ao contrário, trabalha para suavizar tropeços, contradições e falhas em nome da coerência.

6. Do tratamento do Real pelo Simbólico ao tratamento do Simbólico pelo Real
Essa diferença entre abrir o furo (na análise) e fechar o sentido (no LLM) ganha outro alcance quando coloco em jogo duas fórmulas sobre a psicanálise:

  • a de Lacan, para quem a psicanálise é o tratamento do Real pelo Simbólico;
  • e a inversão que eu proponho, para quem, hoje, a psicanálise é o tratamento do Simbólico pelo Real.

Em Lacan, dizer que a psicanálise é o tratamento do Real pelo Simbólico é afirmar que, diante do impossível de simbolizar — aquilo que não cessa de não se inscrever —, o trabalho analítico consiste em encontrar amarras simbólicas novas: outros significantes, outros arranjos, outras formulações que permitam ao sujeito circunscrever, bordear, dar algum tratamento ao impossível que o habita. É a clínica que trabalha com o saber do inconsciente, extraindo significações novas a partir da cadeia significante.

Num certo momento, passei a deslocar esse acento: em um século XXI balançado por um tsunami tecnológico, em que o Simbólico está saturado por discursos, dados, algoritmos e LLMs que produzem sentido em escala industrial, o problema deixa de ser apenas “dar mais sentido” ao Real — e passa a ser deixar-se afetar por um Real que desarranja o excesso de sentido.

Na fórmula que proponho, tratamento do Simbólico pelo Real:

  • o que está em questão não é acrescentar camadas de interpretação a um sujeito já sufocado de discursos;
  • mas operar, na clínica, encontros com o Real que façam o sujeito deslocar suas identificações, seus roteiros, suas narrativas prontas — aquilo que, no século XXI, é amplamente reforçado pelo ambiente digital.

Enquanto Lacan enfatiza o poder do Simbólico de tratar o impossível (o Real) — lógica muito adequada a uma época ainda marcada pelas grandes estruturas e pelo Nome-do-Pai —, eu destaco que, na época atual, o Simbólico se autonomizou: somos atravessados por signos, telas, notificações, “feeds”, assistentes de IA, todos oferecendo sentido e orientação, muitas vezes em excesso.

Nesse contexto:

  • o LLM é a figura paradigmática do Simbólico que se autoalimenta: produz fala coerente, organizada, com começo, meio e fim, quase sem falhar;
  • o sujeito, por sua vez, tende a se perder num oceano de significados, de identidades possíveis, de narrativas disponíveis.

A clínica entendida como tratamento do Simbólico pelo Real torna- se, então, particularmente adequada às mudanças que a espécie humana vem sofrendo neste século XXI:

  • não se trata de oferecer mais explicações ao sujeito, mas de conduzi-lo a experiências de fenda no sentido, onde algo do Real — um ato, um encontro, um corte de sessão, um silêncio bem colocado — faça cair a evidência dos discursos que o capturam;
  • não se trata de organizar melhor o “feed” simbólico do analisando, mas de deixá-lo confrontar-se com o ponto em que ele não sabe mais “o que se diz”, e precisa inventar.

Se, no século XX, a clínica podia ser pensada como o lugar em que o Simbólico tratava o Real traumático, no século XXI é preciso reconhecer que o excesso de Simbólico, amplificado pelo tsunami tecnológico e pelos LLMs, passou a ser ele próprio fonte de sofrimento: ansiedade difusa, comparação infinita, identidade fragmentada, solidão em rede.

Daí, para mim, a pertinência dessa inversão: a análise como lugar em que o Real — entendido como aquilo que não se deixa reduzir a dados, métricas, algoritmos, diagnósticos, nem mesmo a interpretações — intervém para reordenar, fender, simplificar o universo simbólico do sujeito. Em vez de “explicar tudo”, a análise, assim concebida, autoriza o sujeito a inventar-se num ponto de não-saber, fora da programação.

7. O entusiasmo como fim de análise

Se a análise, na época dos LLMs, é o tratamento do Simbólico pelo Real, cabe então perguntar: como se reconhece o fim de uma análise? Não creio que ele se marque apenas por uma nova significação, por mais surpreendente que seja. Em outros trabalhos, sustento que o final de uma análise se dá no entusiasmo.

Retomo aqui o termo tal como Lacan o evoca, e o recoloco em meu vocabulário clínico: o entusiasmo como aquilo que junta a invenção de um sentido — pela incidência do Real — e a responsabilidade do sujeito por essa invenção.

Não se trata da alegria como afeto passageiro, circunstancial, mas de uma posição ética diante da própria invenção. Para esclarecer essa diferença, proponho o seguinte quadro:

ALEGRIA × ENTUSIASMO

1. Alegria é efeito; entusiasmo é causa.
A alegria é consequência de algo bom que aconteceu; o entusiasmo é o que leva alguém a colocar algo em movimento, muitas vezes antes de “saber” se vai dar certo.

2. Alegria repousa; entusiasmo convoca.
Na alegria, o sujeito descansa no que obteve; no entusiasmo, ele é chamado a ir além do já conquistado.

3. Alegria se recebe; entusiasmo se pratica.
A alegria pode ser recebida como um presente das circunstâncias; o entusiasmo é um exercício, uma decisão renovada de se engajar.

4. Alegria contenta; entusiasmo arrisca.
A alegria tende a satisfazer; o entusiasmo implica risco, exposição, aposta.

5. Alegria é de circunstância; entusiasmo é de estrutura. A alegria depende de condições externas favoráveis; o entusiasmo pode surgir inclusive em condições adversas, pois se liga à forma como o sujeito se posiciona frente ao Real.

6. Alegria termina; entusiasmo recomeça.
A alegria tem um fim natural, esgota-se; o entusiasmo se reinventa, retorna como impulso de criação.

7. Alegria consome o já dado; entusiasmo cria o que não havia. A alegria consome um bem já disponível; o entusiasmo se orienta por aquilo que ainda não existe, abrindo espaço para a invenção.

8. Alegria é estado de ânimo; entusiasmo é posição ética. A alegria é um humor; o entusiasmo, tal como o penso no fim de análise, é uma decisão de assumir a autoria da própria resposta ao Real.

Quando digo que o fim da análise se dá no entusiasmo, quero indicar justamente isso: a análise não termina em compreensão, mas em invenção responsável. O sujeito não sai apenas sabendo “por que” sofre; sai capaz de inventar um modo seu de viver com o Real que o constitui, e de responder por essa invenção sem pedir garantias ao Outro — seja ele o pai, o Estado, a ciência ou, hoje, os algoritmos.

Num mundo em que LLMs produzem sentidos plausíveis para quase tudo, o entusiasmo, como fim de análise, marca a diferença: é o ponto em que o sujeito deixa de buscar no grande Outro — agora também digital — a justificativa para sua existência, e passa a assumir o risco de seu dizer e de seus atos.

8. Consequências e possibilidades

Colocar lado a lado a associação livre e a linguagem dos LLMs não serve para “psicanalizar a máquina” nem para “automatizar a análise”. Serve para outra coisa: para mostrar, com máxima nitidez, o que há de irredutível na experiência analítica.

  • A associação livre revela um tipo de determinação que não é estatística, mas desejante.
  • O LLM revela um tipo de saber que não é inconsciente, mas coletivo e técnico — a sedimentação massiva de modos de dizer.
  • A fórmula lacaniana do tratamento do Real pelo Simbólico enfatiza a potência da linguagem para bordear o impossível;
  • a inversão que proponho, o tratamento do Simbólico pelo Real, destaca a necessidade, hoje, de que algo do Real venha perturbar o excesso de sentido produzido por discursos, telas e máquinas.
  • E o entusiasmo, como fim de análise, indica uma saída que não é de reconciliação plena nem de resignação, mas de invenção ética: inventar um sentido sob a incidência do Real e responder por ele.

Associar livremente e gerar texto com LLM são, ambos, modos de fazer circular palavras. Mas:

  • num caso, o ponto de parada é efeito de gozo e corte — emergência de um sujeito capaz de entusiasmo;
  • no outro, é efeito de otimização e bom acabamento — emergência de um produto textual.

Estudar essa diferença — inclusive usando LLMs na formação de analistas, como contraste — é, a meu ver, uma via fecunda para pensar a clínica psicanalítica hoje: numa época em que a circulação de palavras nunca foi tão abundante, a questão, mais do que nunca, é saber onde a palavra falha, onde ela para de continuar “bem” e passa a fazer sintoma. É aí que começa, de fato, a psicanálise — e é exatamente aí que, por projeto, a máquina tende a não ir. E é aí também que, ao final de uma análise, pode nascer o entusiasmo: não a alegria satisfeita de quem “entendeu tudo”, mas a disposição de quem aceita criar o que não havia e sustentar, eticamente, essa criação.

Novembro/2025