Notas Sobre a Emergência de Uma Nova Psicanálise 26/05/2025

Ensaio de Talyta Carvalho sobre o seminário “Curso da TerraDois”, conduzido pelo Dr. Jorge Forbes no primeiro bimestre de 2025.

Nos dois últimos meses de seu seminário, Jorge Forbes propôs um giro conceitual de grande envergadura na clínica psicanalítica, ao introduzir a física quântica, mais precisamente o princípio de incerteza de Heisenberg, como eixo de leitura do sujeito contemporâneo. Longe de constituir uma apropriação metafórica do discurso científico, esse gesto configura a elaboração de um novo paradigma clínico, sintonizado com as mutações da subjetividade na era digital. Forbes não rompe com Lacan, assim como Lacan não rompeu com Freud; trata-se de um avanço estrutural, de um deslocamento rigoroso e consequente, que responde à transformação ontológica do real em nosso tempo.

Segundo Heisenberg, não há sujeito observador separado do fenômeno observado: toda observação modifica o objeto observado. Essa constatação, originariamente físico-epistemológica, é assumida por Forbes como paradigma subjetivo. O sujeito contemporâneo não apenas reconhece o colapso das certezas modernas, mas é constituído por esse colapso. A incerteza já não se configura como uma ameaça a ser controlada ou administrada; ela é a própria textura da experiência subjetiva em um mundo no qual as garantias simbólicas foram dissolvidas.

O real, conforme formalizado por Lacan, era aquilo que resiste à simbolização, o que não cessa de não se inscrever: o impossível do saber. Forbes opera aqui uma torção decisiva: o real já não é o limite externo do simbólico, mas se torna o próprio meio da existência subjetiva. Em Lacan, o Outro é o lugar da estrutura, o campo simbólico onde se inscrevem os significantes que constituem o sujeito. A falha no Outro, isto é, o furo simbólico, já indicava que não havia totalidade possível na linguagem. Contudo, em Forbes, vemos esses conceitos em outra articulação: não se trata de operar com um Outro furado, mas com a dissolução da própria função do Outro como lugar estruturante. Já não há exterioridade simbólica consistente, nem mesmo como ausência estruturada. O simbólico, enquanto campo de ordenação do desejo e do sentido, perde sua eficácia operatória. O sujeito do século XXI não é apenas atravessado por uma falha; ele emerge em um mundo em que o Outro não se sustenta sequer como referência faltosa. É esse ponto que Forbes nomeia com precisão: o real não mais limita a estrutura, ele a dissolve.

É esse ponto de virada que Forbes nomeia como vírus “Buraco-92”, uma figura conceitual que exprime o esvaziamento estrutural radical, intensificado pela hiperconectividade e pelo colapso das mediações simbólicas proporcionadas pela internet. A analogia com a pandemia não é meramente metafórica: o buraco é disseminável, contagioso, viral; trata-se de um vetor que reconfigura o próprio tecido do laço social. Não estamos diante de uma crise episódica, mas de uma mutação topológica do real.

A leitura que Jorge Forbes faz das obras de Benjamin Labatut, especialmente Quando deixamos de entender o mundo e Maniac, confirma esse diagnóstico. Labatut oferece retratos precisos do mal-estar contemporâneo em sua forma mais sofisticada: o saber técnico que se autonomiza, a razão que ultrapassa o humano, a genialidade que desemboca no colapso. Von Neumann, Heisenberg e a inteligência artificial aparecem como signos de um tempo em que o conhecimento já não orienta a existência. Forbes lê, nesses retratos, o sintoma do século XXI e, diferentemente de Labatut, propõe uma clínica para esse sintoma.

Sua proposta é inequívoca: reorganizar o corpo subjetivo para que o encontro com o real, esse real sem garantias, não resulte em colapso. Assim como Freud não “descobriu” o inconsciente, mas criou um dispositivo clínico para tratá-lo, Forbes não reivindica a invenção do vazio. Ele reconhece suas raízes conceituais em Lacan, Sartre e Nietzsche, mas é ele quem estrutura, no presente, clínica e conceitualmente, o campo da subjetividade em tempos pandêmicos de Buraco. Inventa, assim, uma nova prática: uma clínica capaz de reconhecer que o mundo mudou.

Como compreender, então, esse novo estatuto do real em continuidade com Lacan? Uma possibilidade é afirmar que o buraco já não representa uma lacuna na estrutura, mas se configura como o próprio chão. Isso significa que não há mais uma estrutura simbólica garantidora da qual algo escapa: o simbólico perdeu seu lugar de ordenação, e o real deixou de ser obstáculo ao saber para tornar-se o meio em que o sujeito é convocado a existir. Esse deslocamento impõe uma inflexão radical à clínica: aquilo que, em Lacan, aparecia como resto torna-se, em Forbes, campo integral de operação. O que antes funcionava como limite externo transforma-se em condição ontológica da existência. Aqui, “ontológica” não é um jargão, mas uma forma rigorosa de afirmar que a subjetividade atual não se constitui a partir de uma estrutura estável com exceções, mas sim da ausência estrutural de qualquer estabilidade.

O gesto de Forbes é, portanto, ao mesmo tempo ético e estrutural: ele não se limita a diagnosticar a falência do simbólico, mas propõe um novo regime clínico, sustentado por um dispositivo de criação e responsabilidade subjetiva. Sua clínica convoca o sujeito a responder com criatividade, não com retração. Não se trata de administrar o mal-estar, mas de autorizar-se a criar diante dele. Nesse contexto, a criação não é exceção, mas condição de sobrevivência ética.

Assim, Forbes conduz Lacan ao seu ponto de esgotamento teórico e, a partir daí, recomeça. Ele não o abandona, mas realiza com Lacan o que Lacan realizou com Freud: retoma seus impasses teóricos e avança. O buraco, que em Lacan era furo no Outro, torna-se, em Forbes, a própria topologia do sujeito. A clínica já não busca restaurar uma ordem simbólica em ruínas, mas sustentar o sujeito no real de seu tempo, um tempo sem garantias, em que o único fundamento possível é a criação singular como resposta ativa à ausência de estrutura.

Dessa perspectiva, a analogia com a pandemia retorna com precisão: a psicanálise, para Forbes, não é um remédio, mas uma vacina. A clínica forbesiana não busca curar o sujeito do real, nem eliminar seu sofrimento; seu objetivo é reorganizar a resposta subjetiva de modo que o encontro com o real não produza adoecimento. A vacina não impede o contato com o vírus, tampouco o elimina: ela transforma a resposta do corpo. Do mesmo modo, a psicanálise não protege o sujeito do buraco, mas o imuniza para que ele possa sustentá-lo com autoria.

O caso relatado por Labatut, de Lee Sedol contra o programa de inteligência artificial AlphaGo, ilustra essa ética com clareza. Diante de uma jogada impensável pela lógica humana, Sedol não recorreu a regras conhecidas: respondeu com uma jogada inédita, que não derivava de cálculo, mas de invenção. Valendo-me de Forbes, leio nesse gesto o paradigma ético da clínica contemporânea: não há garantias, mas, ainda assim, é preciso jogar. A resposta subjetiva não será herdada, nem ensinada; ela deverá ser inventada.

Lacan já havia indicado que a verdade é meio-dita, que o inconsciente é articulado como linguagem, mas escapa à totalização do saber. Ainda assim, a clínica lacaniana se apoiava em uma certa transmissão simbólica, como a interpretação, o desejo do analista ou a travessia do fantasma, enquanto vias possíveis de acesso à verdade do sujeito.

Forbes, porém, afirma que essa via está bloqueada. Não há mais transmissão possível no modelo clássico, pois o campo simbólico já não funciona como mediador entre sujeito e real. A resposta subjetiva, hoje, não pode ser herdada nem ensinada, pois o que deve ser respondido não está mais na ordem do saber transmitido, mas na emergência de um real inédito. A resposta, portanto, deve ser inventada no sentido forte do termo: um gesto sem garantias, que inaugura sua própria legitimidade.

É nesse gesto singular, inventivo e ético que Forbes reconhece o sujeito possível do Buraco: não mais o sujeito da estrutura, articulado pela falta no Outro, mas uma nova figura subjetiva, emergente em um campo onde o Outro já não se sustenta nem mesmo como furo estruturante. Trata-se, sem dúvida, de uma continuidade com o último ensino de Lacan, sobretudo aquele que culmina na noção de savoir-faire com o sinthome como modo de gozo singular e suplência à foraclusão do Nome-do-Pai. Explico-me: para Lacan, a clínica do real emergia como resposta à amarração falha, como no caso de Joyce, em que o sinthome aparece como um quarto termo que “suplanta” a falha da estrutura, funcionando como uma espécie de costura singular. O savoir-faire avec son sinthome é essa suplência. Entretanto, ainda se trata de uma forma de sustentação simbólica, mesmo que mínima, que permite ao sujeito evitar a queda livre no real.

Contudo, o que Forbes propõe não é apenas um prolongamento técnico desse ponto, mas um deslocamento topológico mais radical. Em Lacan, mesmo em seu último ensino, persiste a lógica da suplência: há ainda uma sustentação por meio da invenção de um nó, de uma montagem. Forbes, por sua vez, constata que o sujeito contemporâneo não apenas opera sem o Nome-do-Pai, mas sem a própria função de amarração simbólica como horizonte possível. O que ele evidencia é a impossibilidade contemporânea de qualquer tipo de costura estável.

Dito de outro modo: se, em Lacan, ainda havia um real a ser trançado pelo simbólico e pelo imaginário, Forbes descreve uma condição em que o simbólico já não oferece sequer a possibilidade de trançado. O que resta ao sujeito não é a construção de uma suplência nodal, mas a sustentação de si a partir de um gesto inventivo que não visa amarrar, e sim habitar o real como tal, sem trégua. Essa clínica não opera por suplência, mas por exposição: uma exposição direta ao real, em que a invenção subjetiva não costura, mas se arrisca no impossível sem anteparo. A invenção, aqui, não se define como estilo do gozo, à maneira do sinthome, mas como gesto inaugural.

A meu ver, é necessário reconhecer que Jorge Forbes tem trazido à existência a maior inflexão da psicanálise no século XXI. Em tempo: não se trata aqui de um juízo de valor, mas de uma constatação estrutural. O campo clínico foi desestruturado pelo colapso dos referenciais simbólicos, e nenhuma operação simbólico-imaginária, nem mesmo a mais refinada, como o sinthome, é suficiente para reinscrevê-lo. Forbes não rompe com Lacan, mas o ultrapassa exatamente onde Lacan se deteve: na possibilidade de ainda fazer laço com os três registros. Diante de um real que já não permite laço, a clínica se reconstrói sobre outro fundamento, que é a autoria do gesto capaz de lançar-se sem garantias.

Importa aqui afastar uma objeção recorrente, ainda que apressada: a de que essa clínica, ao prescindir da estrutura e ao convocar o sujeito à criação, derivaria num voluntarismo subjetivo ou num relativismo subjetivista. O que ele propõe não é o apagamento da alteridade, mas a sua radical intensificação. A invenção clínica não é capricho do eu, mas ato ético que responde a um real intransitivo. A ausência de garantias simbólicas não dissolve a responsabilidade; ao contrário, é o que a inaugura. E é precisamente por isso que Forbes afirma que a psicanálise do século XXI exige responsabilidade, não no sentido moral ou jurídico, mas psicanalítico: responsabilidade diante do próprio inconsciente.

A ética da invenção consiste em manter a resposta que se dá ao real, não como um “vale tudo”, mas como um gesto que implica o sujeito no campo do desejo, como capacidade de enfrentar o impossível. Inventar não é relativizar, é responder com autoria a algo que não se pode delegar. E essa resposta tem consequências.

                                                                                  São Paulo, 20 de Maio de 2025.

Imagem de capa:
Anish Kapoor, Dark Brutal, 2023
Fotografia: Paolo Bendandi | Uso gratuito sob a Licença da Unsplash