Jorge Forbes
Fala de abertura do curso As Máquinas do Mundo: da analogia ao impossível
É uma alegria abrir este curso de Letícia Genesini, do qual tenho o prazer de fazer a curadoria científica.
Lacan dizia que a formação do analista não se restringia ao saber psicanalítico. Ela deveria passar pelo universitas litterarum, pelo universo das letras. Não era uma recomendação ornamental, uma maneira elegante de dizer que o analista deveria ser culto. Era algo mais radical: há coisas que a literatura sabe antes que a psicanálise consiga conceituá-las.
Freud é testemunho disso desde o início.
A própria regra fundamental da psicanálise — dizer o que vier à cabeça, suspendendo seleção, crítica e censura — encontra um curioso precursor em Ludwig Börne, escritor que Freud lera na juventude e que aconselhava: sente-se durante alguns dias e escreva tudo o que lhe ocorrer, sem falsidade nem censura; você se espantará com o que aparecerá.
Quando Freud quer compreender a psicose, não parte de um paciente seu: lê as Memórias de um doente dos nervos, de Daniel Paul Schreber, e transforma um livro em caso clínico.
Quando encontra a Gradiva, de Wilhelm Jensen, leva tão a sério uma personagem de ficção que mostra como um poeta pode antecipar aquilo que o psicanalista procura compreender sobre sonho, desejo, recalque e delírio.
E, em 1908, em Escritores criativos e devaneios, Freud faz uma pergunta extraordinariamente simples: de onde o escritor retira aquilo que nos comove tanto? Sua resposta aproxima a criação literária do brincar infantil e do fantasiar adulto. Mas o escritor faz algo a mais: dá forma compartilhável ao que, no devaneio privado, poderia permanecer inconfessável ou provocar vergonha. A literatura transforma uma satisfação solitária em experiência transmissível.
Talvez possamos avançar um passo: o escritor é criativo não porque representa bem uma realidade já pronta, mas porque, diante do que não encontra representação suficiente, inventa uma forma.
É exatamente aí que o curso de hoje me parece especialmente interessante.
O percurso que Letícia propõe começa num mundo em que representar ainda parecia possível. Dante podia viajar pelo universo porque o universo tinha endereço. Havia alto e baixo, centro e periferia, céu e inferno. O cosmos possuía uma arquitetura, e a linguagem podia pretender acompanhá-la.
Essa segurança se desfaz.
De Galileu a Freud, de Drummond a Haroldo de Campos, até chegarmos ao universo perturbador narrado por Labatut, vamos assistindo à progressiva perda dessa correspondência entre linguagem e mundo. A máquina do mundo já não fecha. O mapa deixa de coincidir com o território. E o homem fica, para usar um termo que me é caro, desbussolado.
É justamente nesse ponto que literatura e psicanálise voltam a se encontrar.
Porque talvez o problema contemporâneo não seja mais descobrir a representação verdadeira escondida atrás das representações falsas. Talvez seja saber viver, criar e decidir quando nenhuma representação consegue completar o mundo.
É também aqui que situo uma mudança que venho propondo para a clínica psicanalítica do século XXI. Se durante muito tempo privilegiamos o tratamento do Real pelo Simbólico — dar palavras, sentidos e articulações ao que irrompia sem nome —, hoje me interessa a operação inversa: o tratamento do Simbólico pelo Real.
Estamos inundados de sentidos, interpretações, narrativas e explicações. O Real pode então exercer outra função: introduzir um basta na proliferação do sentido e devolver ao sujeito a responsabilidade por uma invenção singular.
Pode ser essa uma das lições mais fortes que a literatura sempre ofereceu à psicanálise.
Diante do impossível, o grande escritor não explica tudo.
Ele inventa.
E talvez seja justamente isso que tenhamos vindo aprender hoje com Letícia: o que podem a literatura e a psicanálise quando o mundo já não se deixa completar.
São Paulo, 26/9/26