Maria Ticiana Campos de Araújo
Talvez um dos aspectos mais reveladores dos grandes eventos contemporâneos de inovação não esteja apenas nos temas que apresentam, mas na experiência sensível que produzem. Caminhando entre auditórios simultâneos na São Paulo Innovation Week – inteligência artificial, crise climática, hiperconectividade, saúde, transformação do trabalho, educação, empreendedorismo – tinha-se a sensação de atravessar um mosaico fragmentado das inquietações contemporâneas. Sem dúvida, estávamos diante de palestrantes qualificados, debates relevantes e de uma preocupação genuína em compreender os impasses e vertigens do presente.
A diversidade de temas e a simultaneidade do evento produziam uma experiência peculiar. Entre um palco e outro, tinha-se a impressão de que o mundo contemporâneo se revelava como um vasto oceano: ora de águas congelantes, ora em ebulição, ora confluentes. O deslocamento apressado na escolha de uma nova conferência permitia captar, à distância, essa simultaneidade difusa – de um lado, uma fala que começava; de outro, aplausos que irrompiam; e, às vezes, apenas o silêncio suspenso da espera por um palestrante que ainda não havia chegado. “Quem será o próximo?” A tão mencionada FOMO (fear of missing out) deixava de ser conceito para tornar-se experiência. Escolher um palco – não sem antes cruzar, pelo caminho, com um pequeno humanoide – significava, inevitavelmente, imaginar com certa angústia todos os outros que estavam sendo perdidos.
Mas em contraste com a aflição de conferências eternamente perdidas estavam também as narrativas subjetivamente conciliadoras trazidas por temas discutidos em alguns palcos. Conciliavam a angústia e inquietação com experiências de aprendizagem, crescimento pessoal ou autoconhecimento. O desconforto de alguns temas parecia apenas tolerável quando acompanhado de um acordo de superação, de uma saída subjetiva triunfante, como se toda crise precisasse, inevitavelmente, desembocar em alguma forma de reinvenção luminosa.
Para além dos eventos de inovação, há algo de sintomático nesse movimento que atravessa a contemporaneidade. Questões históricas, antropológicas, filosóficas tendem a ser continuamente traduzidas em linguagem de gestão emocional. Meditar mais. Respirar melhor. Encontrar propósito e desenvolver inteligência emocional para persegui-lo. Como se parte significativa do sofrimento contemporâneo pudesse ser suficientemente enfrentada pela administração performática das próprias emoções. Em que momento a complexidade do mundo passou a ser tolerável apenas quando acompanhada de uma linguagem motivacional de propósito e sentido?
Estamos diante de uma época marcada justamente pela dificuldade de permanecer diante do que não se explica. Existe uma exigência silenciosa para que toda experiência seja explicada, produtiva, transformadora ou edificante. “A tristeza deve ensinar algo”. “O fracasso precisa gerar amadurecimento.” “O colapso deve revelar um novo propósito.” Mesmo a exaustão tende a ser convertida em oportunidade de autoconhecimento. Como se o sofrimento só pudesse ser legitimado ao tornar-se utilitário e funcional. Funcional para quem?
O filósofo franco-argelino Albert Camus desenvolveu, ao longo de sua obra, a noção do “absurdo”, como o momento em que a interrogação humana por um sentido encontra apenas o silêncio indiferente do mundo. Para ele, o absurdo não nasce da falta de sentido em si, mas do choque entre nossa insistência em buscar respostas e a opacidade do mundo posto. Talvez por isso sua reflexão desmonte, com tanta força, uma expectativa tão característica da contemporaneidade: a de que toda crise precise necessariamente converter-se em aprendizado, crescimento ou sentido. Às vezes, ela só deságua em um mar de silêncio. Assim como o filósofo desaguou. Sustentar a ausência de sentido tornou-se uma das tarefas mais difíceis da contemporaneidade.
É precisamente aqui que a psicanálise parece colocar um feixe de luz. Não porque ofereça respostas mais confortáveis, mas por suspeitar da promessa contemporânea de discursos com soluções garantidas, que, funcionariam apenas como um logos pharmakon[1] – alivia o mal-estar enquanto também o reproduz.
O psicanalista Jorge Forbes, também conferencista do evento, nos ajuda a compreender um traço importante do mundo contemporâneo. Para ele, vivemos em uma época marcada pela dissolução progressiva das referências estáveis que antes organizavam a experiência social. Já não existem garantias simbólicas sólidas capazes de orientar integralmente os sujeitos ou oferecer narrativas duradouras de sentido.
Em um cenário de aceleração permanente, excesso de informação e referenciais instáveis, cresce a dificuldade de sustentar a experiência da falta, da incerteza e da incompletude. Emerge o desbussolamento, como cunhou Forbes. Talvez por isso discursos capazes de restaurar completude e direção – diante de um mundo cada vez mais fragmentado – ganhem adeptos. A obsessão por referências simbólicas converte-se em storytelling motivacional.
Esse é o grande paradoxo. Fala-se constantemente em ruptura, transformação e futuro, mas raramente se sustenta aquilo que há de verdadeiramente perturbador em tudo isso: a angústia da falta de garantias. Isso ajuda a compreender por que certos ideais contemporâneos de bem-estar que prometem uma plena integração entre felicidade, identidade e sentido falham miseravelmente – que o digam os consultórios dos psicanalistas da pós-modernidade.
É nesse sentido que Forbes propõe uma clínica psicanalítica voltada para a invenção singular do sujeito. Ou seja, ao invés de buscar uma normalização em garantias universais, a partir de segurança e equilíbrio, o sujeito contemporâneo se implicaria em criar uma resposta singular e ética a esse mal-estar, se responsabilizando por ela.
De volta aos palcos da São Paulo Innovation Week, de surpresa, uma conferência sobre neurobiologia parece atravessar essa reflexão: o que pode emergir justamente quando as garantias se dissolvem?
A bióloga Tatiana Sampaio, ao comentar sua pesquisa sobre a proteína polilaminina – atualmente associada à reabilitação de pessoas com lesões na medula – contou que, ao perceber a presença quase onipresente daquela proteína nos tecidos humanos, pensou: “há de servir para alguma coisa”. Não havia ali uma busca linear e obcecada por uma cura específica. Mas sim uma pergunta, uma observação e uma abertura ao imprevisível não garantido. Somente mais tarde apareceu a possibilidade de aplicação. A lógica do sentido saiu de cena para dar vez a experiencia da dúvida, aqui o resultado não veio do propósito, mas do acaso.
Mas foi também por um acaso, já no início da noite, que cruzei um espetáculo de drones no céu. Luzes, cores e formas se reorganizavam continuamente em imagens quase indecifráveis, despertando interpretações imediatas entre os espectadores: “é uma taça”, “um copo”, “um balão”. Havia algo de curioso naquela tentativa coletiva de produzir sentido imediato diante do que ainda estava fragmentado. Enquanto observava a coreografia luminosa atravessando a noite, pensei que talvez aquela própria tecnologia também tivesse nascido como a da bióloga: de algum acaso científico, de uma pergunta imprevista, de um desvio inesperado. Não custa imaginar.
Ao final, entre tantas tecnologias, debates, afetos e aplausos, talvez o verdadeiro desafio contemporâneo não esteja em lidar com as transformações aceleradas do mundo, mas em suportar a ausência de garantias que elas revelam. A cientista não sabia o que estava procurando, suportou a incerteza e surpreendeu-se com um mundo de extraordinárias possibilidades que encontrou. Poderia ser esse tal propósito a antítese da inovação? Quem sabe. Por ora, apostemos menos em ideais de uma vida equilibrada e com propósito, e mais em equilibristas criativos e corajosos. E à cada qual o seu balancim.
São Paulo, Junho de 2026.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2025.
FORBES, Jorge. Inconsciente e responsabilidade: psicanálise do século XXI. São
Paulo: Manole, 2013.
FORBES, Jorge. Clínica do Real. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=NjnvUncQh0U. Acesso em: 21 maio 2026.
FORBES, Jorge. Chega de tanta felicidade. Disponível em: https://jorgeforbes.com.br/chega-de-tanta-felicidade/. Acesso em: 20 maio 2026.
[1] “Na verdade, assim como certos medicamentos expulsam do corpo certos humores, suprimindo uns a doença e outros a vida, do mesmo modo, de entre os discursos, uns há que inquietam, outros que encantam, outros que atemorizam, outros que incutem coragem no auditório, outros ainda que, mediante uma funesta persuasão, envenenam e enfeitiçam o espírito.” GORGIAS. Górgias: testemunhos e fragmentos. Tradução de Manuel Barbosa e de Inês de Ornellas E Castro. Lisboa: Colibri, 1993, p. 45.