Das luzes no fim do túnel 23/10/2014

Por Bruno Nunes

Diante dos avanços da genética e da possibilidade do mapeamento do DNA, as pessoas serão confrontadas com informações que pedirão uma interpretação e uma consequente escolha.

Recentemente, para a realização de um trabalho na área biomédica, que curso na Unicamp, li a publicação de um projeto, parceria pioneira entre a genética e a psicanálise, que acontece no Centro de Estudos do Genoma Humano da USP-SP. Surpreso que fiquei, escrevo aqui o que dessa iniciativa me tocou e que perspectivas o trabalho abre para o campo das ciências e das humanidades.

O primeiro encontro do Dr. Jorge Forbes, psiquiatra e psicanalista, e Dra. MayanaZatz, geneticista, foi selado apartir da pergunta que ele dirigiu a ela, se entendia que existia uma relação biunívoca entre Genótipo e Fenótipo.“Mas quem foi que lhe disse essa asneira?”, disse ela. Ambos concordaram quanto à existência de um “gap”entre uma lesão genética e sua expressão, ou seja, entre a alteração genética e a manifestação gênica, que não é clara e muito menos padronizada. Esse gap abre para a particularidade como em cada pessoa se dará essa expressão. Daí originou-se o projeto “Desautorizando o Sofrimento”, existente desde 2006.

A respeito do nome-mote do projeto, Jorge Forbes afirma: “Ah, seria ótimo desautorizar o sofrimento! Nosso projeto émenos ambicioso e mais realista: é o sofrimento padronizado que queremos desautorizar. A sociedade provêtanto alegrias, quanto sofrimentos padronizados. Eles funcionam sempre que uma pessoa não sabe o que fazer.”

O trabalho é desenvolvido na Clínica de Psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP (CEGHUSP), todas asmanhãs de segunda-feira. Ali, pratica-se uma psicanálise, do Real, que, frente ao sofrimento provocado por um diagnóstico, visa à perspectiva uma nova ética clínica, que implique o paciente diante de sua doença e das escolhas que ele quer fazer. Os pacientes nele envolvidos vêm mudando de umquadro de resignação e depressão para outro, de invenção de novas respostas, singulares, frente à doença e à vida. A fala de um dos pacientes ilustra bem essa mudança: “Este trabalho da psicanálise junto com o Genoma é de suma importância… hoje, com alguns meses de análise, descobri que a distrofia faz parte da minha vida e não que a minha vida faz parte da distrofia.”

Constatou-se que os pacientes afetados apresentavam um novo “vírus”, nomeado pela equipe como RC – Resignação-Compaixão. Porparte do paciente, resignação, diante do recebimento de um diagnóstico de uma doença com manifestações mais severas dentro de um futuro breve. Resignada, a pessoa sente-se perdida em relação a si mesma, buscando uma identificação para com aqueles sentimentos prêt-à-porter, prontos para vestir, que já foram anteriormente concebidos pela sociedade. Assim sendo, frente ao inusitado de um diagnóstico, na maior parte das vezes, o paciente que recebe a notícia deque tem uma distrofia neuromuscular, que afetará seu modo de andar dentro de dois anos, já se antecipa epassa a sentir os sintomas da doença. Por identificar-se ao perfil dos portadores da patologia, sai manquitolando do consultório. A Compaixão, outra vertente do vírus, manifesta-se por parte da família, que irresponsabiliza e fixa a pessoa a partir do que imagina ser o sofrimento do familiar. Ao pautar-se nas manifestações padrão da doença, chama o paciente desse lugar, limitando-o de encontrar outras saídas, singulares, diante de tal diagnóstico.

É, portanto, no sentido contrário a essa resignação que está a revolução desse projeto. Tal iniciativa interessa não só aos pacientes afetados por doenças genéticas, mas também à sociedade em geral. Diante dos avanços da genética e da possibilidade do mapeamento do DNA, as pessoas serão confrontadas com informações que pedirão uma interpretação e uma consequente escolha. A aposta está nas vias singulares e criativas de incluir o diagnóstico de uma doença genética, sem deixar­se paralisar por ele, sem préidentificar-se a respostas genéricas e padronizadas que reforçam uma posição de vítima. Se sofrer por antecipaçãoé a chave-mestra à progressão das doenças genéticas, o retardo da manifestação gênica é um dos efeitos alcançados por esse trabalho.

Bruno Ghirotto Nunes é estudante da Unicamp e escreve no blog: http://studoetodos.blogspot.com.br